Quando falamos de poupança, falamos de investimento ou quando falamos de investimento falamos de poupança?

Essa é a famosa pergunta “quem veio primeiro, o ovo ou a galinha?” dentro da economia — na verdade ela é apenas uma das várias incógnitas que a economia estuda. Alguns defendem a teoria de que primeiro é necessário poupar para, então, ter o capital que financia o investimento; outros se resguardam na hipótese de que a poupança em si já é um investimento, logo, se poupo, estou investindo.

Pois bem, acredito que estamos longe de desvendar “o que é o quê!”. Sendo assim, cada um é livre para formar uma opinião nessa discussão baseando-se nas escolas neoclássicas ou keynesianas. Apresento, então, a originalidade deste debate e as idéias dessas duas correntes de pensamento.

Há algumas linhas de pensamento na economia que são seguidas por autores e grandes nomes dessa ciência, como a Escola Neoclássica, que estuda os preços, a renda e linha de produção, originada ainda no fim do século XIX por Stanley Jevons e Menger; e os Keynesianos, inspirados pelo inglês John Maynard Keynes, que acreditam na “perfeição” da política fiscal.

O sentido de causalidade entre as variáveis poupança e investimento sempre foi motivo de controvérsia no campo teórico, sendo o debate polarizado pelos as enfoques Neoclássicos e Keynesianos. No enfoque neoclássico, representado pela Teoria dos Fundos de Empréstimos (TFE), a definição da taxa de juros se dá por meio da interação entre oferta (poupança) e demanda (investimento) de fundos emprestáveis, de modo que o estoque de poupança determina os níveis de investimento, ou seja, para os neoclássicos a poupança gera o investimento. Já na visão keynesiana, baseada na preferência pela liquidez, essa causalidade é revertida, sendo a poupança uma consequência da renda gerada pelo investimento.

Poupança versus Investimento

Apesar desse debate ainda se manter vivo entre as duas correntes de pensamento, com representantes de ambas as escolas defendendo seus respectivos pontos de vista, alguns economistas consideram que a visão keynesiana é mais condizente com a realidade atual. Isso porque a origem da TFE remonta ao século XIX, quando havia um sistema bancário ainda primitivo. Nestas condições, a poupança realmente era precondição para o investimento, já que, a limitação para ampliar a oferta monetária (através do multiplicador bancário), decorrente das condições institucionais de um sistema bancário ainda incipiente, impunha a necessidade previa de depósitos para lastrear os empréstimos a serem concedidos.

Com isso, a teoria keynesiana da preferência pela liquidez surgiu como uma alternativa à ultrapassada visão neoclássica. O termo “preferência pela liquidez” decorre da mudança na atribuição dada à taxa de juros, que deixa de ser determinada pela interseção entre as curvas de poupança e investimento, como postulava a TFE, e passa a representar um “prêmio” obtido ao se abrir mão da liquidez.  Desta forma, a taxa de juros assume papel fundamental na determinação da alocação da riqueza pelos agentes superavitários e, associada às expectativas de rentabilidade dos projetos dos capitalistas, influencia a decisão de investimento por parte das empresas.

A despeito da importância para teoria macroeconômica dessa nova atribuição dada à taxa de juros, outra inovação proporcionada pelo enfoque keynesiano, relatada também pelo economista Fernando Costa, em 1991, se coloca como aspecto fundamental no âmbito deste estudo. Esta corresponde à incorporação do papel desempenhado pelo sistema financeiro, que permitiu dissociar o investimento da existência prévia de poupança.

De acordo com o princípio da demanda efetiva, a decisão do empresário de desembolsar recursos (investir) para iniciar a produção ocorre “ex-ante”, baseando-se na expectativa de vendas “ex-post”. Desta forma, a viabilização da produção é tida como precondição para geração da renda e, consequentemente, da poupança. Em outras palavras, o investimento gera a renda, que, por sua vez, cresce como múltiplo do investimento inicial (efeito multiplicador) e, ao final do processo, parte da renda gerada é poupada

Em suma, segundo o argumento keynesiano, é o investimento que gera a poupança, e não o contrário. O investimento, assim como o crescimento da produção e o desenvolvimento econômico, não dependem da existência prévia de poupança para ocorrer, e sim, da capacidade do empresário de usar capital próprio (lucros retidos) ou se endividar (tomar recursos de terceiros).