Na entrevista de hoje teremos uma investidora bem conhecida na blogosfera, muito experiente na Bolsa de Valores e que tem uma facilidade incrível para redigir textos que tratam de assuntos complexos com um ar simples e que atinge os investidores dos veteranos aos novatos, realmente uma pérola entre vários cascas grossas por ai!

Ela prefere seguir no anonimato portanto chamarei pelo apelido de Ostra, ou Dona Ostra como a maioria a conhece, é a mãe da Baby Ostra e dividem junto o blog O Culto da Ostra Azul, blog obrigatório para sua lista diária de leitura. 🙂

1 – Quero começar a entrevista agradecendo pelo seu tempo e te elogiando pelos excelentes artigos que cria em seu blog O Culto da Ostra Azul no qual divide atualmente o espaço com sua filha conhecida pelo apelido de Baby Ostra, como está sendo arrumar tempo para fazer suas tarefas diárias, cuidar da pequena, investir e manter o blog com assuntos inusitados e bem escritos?

 General, agradeço o convite para a entrevista, assim como o elogio aos textos do meu blog, fiquei muito feliz.
 Sou hiperativa, durmo pouco, não consigo ficar parada muito tempo e é interessante como o tempo se multiplica quando unimos tudo isso a uma TV desligada e computador usado exclusivamente de forma útil (sem MSN, Facebook, Youtube, e distrações parecidas), aliás acho que esse item isolado já proporciona muito tempo a qualquer pessoa. Se eu tenho um dia improdutivo procuro rever o que eu fiz com o meu tempo e normalmente envolve tarefas que não acrescentaram muita coisa. Claro que com várias atividades não dá para abraçar o mundo e ser perfeita em tudo, optei por exemplo em morar em um apartamento minúsculo para não dedicar muito do meu tempo com tarefas domesticas, são pequenas opções que fiz em minha vida e no dia a dia que simplificam minha vida e posso me dedicar ao que realmente considero importante: minha família. O blog realmente exige tempo e dedicação, mas no meu caso tem sido uma distração e uma forma de conversar e trocar ideias com pessoas que falam do mesmo assunto. Saí de um emprego formal há vários anos e com o tempo a vida social começa a ficar um pouco solitária, as pessoas que eu mantinha contato, trabalhava, estudava, seguiram suas vidas, mesmo os amigos mais próximos com o passar dos anos mudam, iniciam uma família, se dedicam a ela, então encontrar pessoas e conversar fica um pouco difícil após sair do mercado de trabalho e decidir se dedicar exclusivamente aos investimentos. O blog se tornou uma válvula de escape, uma forma de me manter em contato com pessoas com assuntos em comum, o esforço tem valido a pena, o retorno é positivo e me divirto com isso, mas não considero como uma obrigação, então quando algo não estiver funcionando como eu gostaria, eu paro.

Culto Ostra Azul
Pés da Dona Ostra!

2 – Você é a investidora mais famosa da blogosfera, pelo que notamos em algumas histórias do seu cotidiano a vida de uma mulher que atua na Bolsa de Valores não parece ser bem vista pelos homens, seus amigos e familiares sabem do seu blog e dos investimentos? Como lida com os comentários e/ou consegue contornar isso?

Investidora mais famosa? Surtou?

 Como diria o meu ídolo Steve Jobs:

” Seu tempo é limitado não percam tempo vivendo a vida do outro.Não sejam aprisionados pelo dogma – que é viver com os resultados do pensamento de outras pessoas. Não deixe o barulho da opinião dos outros abafar sua voz interior. E mais importante, tenha a coragem de seguir seu coração e sua intuição. Eles de alguma forma já sabem o que realmente quer se tornar. Tudo mais é secundário.”

  Acho que essa frase dele já diz tudo. Nada é “bem visto” quando não estamos seguro do que estamos fazendo ou preocupados com a opinião alheia. Realmente não é um mundo muito “feminino” mas comentários ou críticas não me afetam de forma alguma, muitas vezes acho engraçado quando algum homem faz um comentário depreciativo, outras vezes só vou entender que foi uma crítica muito tempo depois, mas o interessante é que as críticas mais absurdas e mais humilhantes sempre partem das próprias mulheres, com isso fui simplesmente aprendendo a testar o interlocutor, sempre faço um teste, se a pessoa demonstra estar aberta a conversar eu avanço lentamente, caso contrario mudo de assunto. Interessante que o maior preconceito que sofro é da minha própria mãe, ou talvez seja a única pessoa que consegue me atingir com críticas, mas não porque ela acha que isso “não é coisa de mulher” mas sim porque ela viveu muitos anos ao lado do meu pai e amigos dele, que investiram, ganharam, perderam, alguns inclusive se suicidaram na época do Nahas e do Collor, são 50 anos de relacionamento ouvindo sempre os mesmos assuntos, deve cansar um pouco para alguém que não gosta de finanças, ela também vem de uma família de jogadores compulsivos e esse vicio é muito triste, todos perderam absolutamente tudo, incluindo saúde, então ela sempre teve medo da combinação genética de investidores (lado do meu pai) + jogadores, medo de que qualquer filho se perdesse no meio desse caminho, ela foi a única que me incentivou a juntar dinheiro, era a primeira a dizer: não gaste com besteiras enquanto não tiver 1 milhão! Mas quando falo de ações ela sempre diz: já vai começar com essas besteiras? Isso é um jogo, você e seu pai são uns viciados! Completamente antagônica a opinião dela. Mas tirando meus pais, marido e filha, ninguém mais sabe que invisto, meu irmão tem uma leve ideia, mas ele tem perfil de jogador e passou por uma experiência muito ruim com ações logo após o plano Collor, nunca mais retornou a esse tipo de investimento e incentivamos esse comportamento dele, o máximo que conversamos é quando o mercado está em baixa e ele questiona se perdi muito.

Fui ensinada desde criança que não devemos jamais comentar com ninguém a respeito, achava exagero dos meus pais quando pequena mas por volta dos 14 anos comecei a ter contato com a “vida real”, ameaças de sequestro para a família, filhos de amigos sequestrados, então entendi que não era exagero. Quanto ao blog apenas meu marido, minha filha e 3 amigas “virtuais” sabem a respeito.

3 – Em seu blog é dito que atualmente é Independente Financeiramente, o sonho de todos os investidores que criaram blogs neste ano e acredito que de muitos leitores, como foi a caminhada para chegar nesta etapa? Trabalhou, Empreendeu ou ambos?

Trabalhei muito! Comecei a trabalhar com 16 em uma época que meu pai estava quebrado por conta do plano Collor, estava acostumada a uma vida que tinha quase tudo que queria e de uma hora para a outra até o leite em casa era controlado, fui trabalhar em uma loja de moda ao lado de casa e detestei!! Nunca gostei de disciplina, regras, subordinação, desde a época de escola já era expulsa de sala de aula por questionar professores, então trabalhar foi um processo muito complicado, e nesse ponto devo muito ao meu marido, na época meu namorado, sempre foi quem me trazia para a realidade e deixava claro que para vencer eu teria que abrir mão de algumas coisas, eu era impulsiva e ele racional, a combinação foi o  equilíbrio de forma positiva para os dois. Com isso aos 19 já tinha um bom emprego em um banco multinacional e pouco tempo depois estava com um excelente salário, sempre fui muito controlada com meu dinheiro e investia qualquer trocado que sobrasse. Aos 24 ganhava por hora e ao mês recebia mais que um diretor, mas nada é perfeito… Trabalhava 14, 16 horas por dia, incluindo finais de semana. Me recordo algumas vezes chegar em casa as 6h da manhã e retornar as 10h para o escritório.

Nunca empreendi, já cogitei a respeito muitas vezes mas pesquisando atualmente a respeito a ideia não me agrada, acredito que não me daria bem nessa área. Cresci em um mundo de investimentos e matemática, com pouca idade meu pai já me ensinava sobre juros, acompanhei o trabalho dele com alguns amigos com as ações, dólar, ouro,  esse é o mundo que conheço, tenho facilidade e gosto. Quando “trabalhamos” e nos dedicamos a algo que amamos muito o retorno normalmente é positivo, seja um emprego ou um empreendedorismo, comigo isso tem funcionado.

4 – Na antiga versão do blog da Ostra Azul houve um relato de como foi sua trajetória e deu para notar que o networking ajudou muito em seus investimentos, quando saber a hora de escutar uma “dica” ou acreditar em uma análise na sua visão?

Observe:tem uma diferença muito grande entre uma “dica quente” de um blog, um fórum de Internet, um analista na TV para um investidor de mais de 30 anos de experiência, administrador de um clube de investimentos de peso. Antes de mais nada temos que saber quem está por trás da informação, seu conhecimento do assunto, sua experiência nesse mundo, depois ter vontade de arriscar, no meu caso caso foi praticamente um jogo, uma aposta, ou ganha muito ou perde, no máximo o que acontecerá se o investidor perder o investimento? Na maioria dos casos terá que começar do inicio novamente, está disposto a isso? Certeza a respeito da informação nunca teremos, inclusive a informação pode ser realmente boa, mas o resultado ser o oposto do esperado.

Um empreendedor não tem que arriscar ao abrir um negócio próprio? Sempre existe a possibilidade de tudo dar errado, mas ele estuda, pesquisa, e com toda a informação em mãos avalia suas chances e só então arrisca. Mundo de investimentos é isso, é arriscar sabendo onde está pisando e ciente que existe a possibilidade de ter que começar tudo novamente (e não podemos esquecer que existem algumas operações que o risco é ainda maior, o de perder além do investido).

5 – Sua estratégia é uma das mais robustas com empresas sólidas como AMBEV e incluindo até ouro na carteira, depois de certo período uma carteira de valor razoável (acima de 1 milhão), em sua opinião, deve existir esta alocação? Sua carteira sempre foi diversificada ou começou concentrando em algum ativo?

Se é obrigatória a diversificação? Depende! No meu caso no inicio eu não queria diversificação, apesar de crescer ouvindo “nunca coloque seus ovos apenas em uma cesta”, eu não queria saber desse papo, queria arriscar, jogar, tentar multiplicar o patrimônio, agora não quero mais nada disso, não quero correr o risco de voltar a trabalhar, então diversificação é item obrigatório nesse momento. A opção pela diversificação não acredito que depende do valor da carteira e sim do perfil do investidor, sua  idade e estratégia (não, eu não tinha estratégia no inicio, planejamento? Nem imaginava o que poderia ser rsrs). Alguns com menos de 30 anos e patrimônio pequeno não aguentam as variações no capital investido, então estariam errados em diversificar? Com certeza não! Cada um tem que saber até que ponto aguenta. Como citei, meu pai e vários amigos perderam muito no período entre Naha e Collor, diversificavam? Não… Vários começaram do início e reconstruíram um patrimônio ainda maior, mas outros abriram a janela e pularam. O investidor tem que ter auto conhecimento suficiente para saber o tamanho do seu apego ao patrimônio, sempre se questionar: Consigo voltar ao inicio e começar tudo de novo? Com base nessa resposta ele deve montar sua estratégia.

Gosto de contar que comecei com fundos de ações meses antes da crise da Rússia, pois logo em seguida vi meu dinheiro derretendo quase 50%, era estagiária na época, ganhava pouco e a sensação não foi agradável, mas sabia como era o mundo de ações, sabia que tinha entrado em hora errada e não tinha me informado corretamente. Por 3  momentos em minha vida de investidora fiquei 90% em um papel, realizei lucro e pulei fora, estava disposta a perder e reiniciar, mas hoje nem imagino fazer algo semelhante.

6 – A Baby Ostra, sua filha, notamos que é uma menina muito esperta e interessada por Investimentos, vivendo no meio de um ambiente de investidores bem sucedidos será que ela irá querer trabalhar um dia ou pensa em viver apenas dos investimentos como a mãe? Ela comenta algo do tipo?

Crianças são esponjas, aprendem absolutamente tudo que ensinamos, se subestimamos essa capacidade delas perdemos uma oportunidade muito grande de ensina-las e prepara-las para o futuro. Minha pequena é interessada pois passa o dia comigo, me vê trabalhando, ouve minhas conversas com meu pai e atualmente eu aproveito isso para passar conhecimento. Mas ela se interessa por muitos outros assuntos, alguns temporariamente, outros viram compulsão e estuda e fala por muito tempo. O futuro? não sei, tento viver o dia de hoje, mas espero que ela tenha sim uma profissão, experimente o mercado de trabalho, construa seu próprio caminho.

Sempre digo para ela que meu dinheiro é meu, eu e o pai dela construímos o nosso patrimônio do zero e sem ajuda financeira de ninguém, e que ela deve fazer o mesmo, estamos dando a base, o alicerce, que é o conhecimento a partir disso ela terá que trilhar seu próprio caminho e nunca devemos esperar nada de ninguém nem contar com dinheiro dos outros. Deixo claro que não espero receber herança dos meus pais, assim como ela jamais deve contar com isso também. Conto a história do Bill Gates que não pretende deixar herança para os filhos e explico o motivo, que tudo que ganhamos fácil não damos valor. Ela ainda é muito criança, mas já tem planos para a vida adulta que provavelmente mudarão com o tempo, quer estudar fora do Brasil por um tempo (ok, essa parte é minha culpa), quer se formar em biologia e veterinária, ter um sitio e criar cabras, esses sonhos infantis, quem segue o mesmo caminho sonhado desde antes dos 12 anos? Eu queria ser bancária…

7 – Ostra, com uma história fascinante como a sua busca pela Independência Financeira, a forma com que cria sua filha e lida com a família toda além de estar sempre ligada nos blogs e no Mercado de Valores é realmente impressionante, gostaria que deixasse uma mensagem para aqueles que estão começando agora e para seus leitores que devem estar acompanhando a entrevista.

Só posso dizer para que nunca desistam de um sonho, não percam tempo com a vida alheia, aproveitem ao máximo suas vidas, amem, dediquem-se a suas famílias. Não precisamos de tudo que a mídia nos apresenta, não precisamos seguir moda, itens materiais não nos tornam melhores ou mais felizes. Uma combinação de esforço pessoal, dedicação e estudo pode fazer maravilhas em nossa vida, ficar sentado se lamentando por não ter algo não muda nada, o que muda é levantar e ir atrás do que deseja.

Arriscar as vezes pode ser vantajoso, mas apenas arrisquem o que estão dispostos a perder, caso contrario, sigam o caminho mais tranquilo, pode ser o mais longo, mas te levará ao destino certo. O mais importante: estudem muito e tomem suas próprias decisões, ninguém saberá melhor a respeito do seu dinheiro do que você mesmo (assim como quem se arrependerá por uma decisão errada será você e não outra pessoa). E quando falo de estudo não me refiro apenas a livros técnicos ou balanços, estudar vai alem disso, engloba biografias, historia, outros assuntos não relacionados, devemos sempre buscar o auto conhecimento, o desenvolvimento físico e mental, a evolução, o resto será apenas uma agradável consequência do nosso esforço pessoal.